A G.R. tinha 95 anos quando integrou um grupo de musicoterapia. Apresentava um diagnóstico de demência não especificada e de hipertensão.
Antes da intervenção, a idosa encontrava-se muito inativa, prostrada e observava-se um elevado isolamento social (principal razão por ser incluída numa intervenção em grupo). Mostrava também pouca produção e pouca fluência verbal. A postura da G.R. revelava pouca ativação do tónus muscular uma vez que se encontrava maioritariamente com o tronco curvado. Do ponto de vista musical, a G.R. só cantava quando abordada individualmente, por curtos espaços de tempo e não tocava instrumentos musicais.
A intervenção consistiu em 25 sessões de musicoterapia. O grupo era constituído por 4 utentes da mesma instituição com um quadro clínico semelhante ao da G.R., no entanto mostravam uma participação mais ativa, com mais produção verbal e coerência no discurso que esta última.
Ao longo da intervenção, a evolução da G.R. traduziu-se em 3 fases distintas nas quais as suas reações, comportamentos, grau de participação e de envolvência foram bastante diferentes.
1ª fase (da sessão 1 à 7): Apresentava-se curvada, sem iniciativa e pouco responsiva. Cantava apenas se abordada individualmente e se a canção lhe fosse muito significativa. Mostrava-se pouco expressiva e motivada, pouca energia, escasso contacto visual e não interagia com os elementos do grupo. Ao longo desta primeira fase o tempo de atividade e de participação da G.R. foi aumentando ligeiramente, necessitando cada vez menos de um incentivo individual.
2ª fase (da sessão 8 à 18): Nesta fase, verificou-se que a G.R. voltava à postura curvada com menos frequência. Começou a ter noção do contexto em que estava inserida, assim como da existência de outros elementos no grupo. Verificaram-se alguns sinais de procura de interação com os mesmos e um aumento da produção verbal. Ao longo desta fase, a G.R. foi mostrando cada vez mais iniciativa, energia e contacto.
3ª fase (da sessão 19 à 25): A partir da sessão 19, todos os progressos verificados nas sessões anteriores se acentuaram, passando a ser observados em todas as sessões. A produção verbal coerente aumentou e tornou-se frequente e expressiva. Observou-se uma ativação do tónus muscular quer durante as sessões quer fora delas. Observou-se um aumento da noção de si e dos outros e uma consequente maior interação com os pares. Do ponto de vista musical a G.R. começou a tocar instrumentos, a cantar por iniciativa, e a relacionar-se também musicalmente com os outros elementos do grupo.
Ao longo da intervenção a G.R. aumentou bastante a sua produtividade, participação, envolvimento e iniciativa. O contacto interpessoal aumentou consideravelmente assim como as interações com os pares durante e fora das sessões. Foi também visível um aumento progressivo da produção verbal coerente.
No final da intervenção a G.R. tinha um papel de líder no grupo e, consequentemente, um papel fundamental na dinâmica do mesmo.
Tal como já foi referido na publicação "
Musicoterapia na demência", a musicoterapia confere ao idoso conforto, segurança, sentimentos e emoções positivas promovendo a interação com o terapeuta a um nível mais íntimo e pessoal. Estimula o idoso a recordar palavras, a reconhecer objetos, promove a linguagem e a memória. Promove também o envolvimento do idoso, a interação, a socialização e a comunicação.