terça-feira, 25 de novembro de 2014

A importância de cantar em musicoterapia

Cantar é um rico e excelente mediador de intervenção para um musicoterapeuta. Cantar em musicoterapia proporciona um ponto de contacto significativo e até mesmo emocionalmente íntimo entre o cliente e o terapeuta. Usar a voz como instrumento musical é algo muito pessoal. A voz reflete o quão bem um indivíduo se sente do ponto de vista físico, emocional e até mesmo espiritual.

Numa intervenção musicoterapeutica, cantar pode ser uma fonte de conforto perante acontecimentos traumáticos, dificuldade em compreender o mundo à sua volta e ainda um poderoso meio de chegar ao outro.

Cantar é uma experiência musical muito significativa. Cantar ativa memórias, reduz a melancolia e estados depressivos, estimula respirações profundas e o relaxamento físico, diminui o isolamento, promove a auto-expressão, proporciona algo familiar perante o desconhecido e promove a produção verbal.

Algumas pessoas mostram alguma resistência em cantar devido à perceção que têm da sua voz e da sua capacidade de cantar. É assim, papel do musicoterapeuta, encorajar, motivar e ajudar a reduzir ansiedades e receios que estejam associados ao cantar.




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Musicoterapia Criativa

O modelo de musicoterapia Nordoff-Robbinsn (musicoterapia critativa) foi desenvolvido por Paul Nordoff (compositor e pianista Americano) e Clive Robbins (professor de educação especial). É um modelo de musicoterapia baseado na convicção de que toda a gente possui uma musicalidade inata que pode ser explorada beneficiando o crescimento e promovendo o desenvolvimento pessoal.
O despertar desta musicalidade no cliente aumenta a consciência de si próprio, permite-lhe descobrir o significado da experiência terapêutica, desenvolvendo assim a intenção comunicativa na sua reposta musica.

A música aceita, vai ao encontro e/ou suporta o estado emocional do cliente enquanto este corresponde e acompanha dando liberdade à sua auto-expressão. As suas respostas musicais são o centro da terapia e é nesta interação musical entre terapeuta/cliente que a terapia acontece. Ao longo das sessões, o musicoterapeuta estuda as respostas e a criação musical do cliente para que as possa suportar e improvisar no sentido de uma evolução positiva. Quando o musicoterapeuta toca, expressa a sua presença para o paciente e a sua música reflete as suas primeiras intenções clínicas.
Existe interação verbal, mas é mínima.

A musicoterapia criativa já foi aplicada nas seguintes problemáticas: mutismo, ecolálias, regressões, negativismo, apatia, dependência, insegurança, falta de controlo, estereotipia, falta de criatividade, autismo, psicose infantil, perturbações emocionais, problemáticas intelectuais, distúrbios neurológicos, problemas físicos e sensório motores, distúrbios da aprendizagem entre outras.

Para beneficiar de musicoterapia não são necessários pré-requisitos. O cliente pode ou não falar, uma vez que o uso da musicoterapia criativa não é limitado pelo grau de desenvolvimento nem pela idade.

Através da exploração dos elementos da música, o cliente pode atingir níveis de percepção superiores que são uma parte importante no seu processo terapêutico. Desta forma é possível trabalhar as suas percepções distorcidas através da música. Este tipo de trabalho é paralelo às transferências que ocorrem na psicoterapia tradicional.


domingo, 6 de abril de 2014

Musicoterapia em crianças/adolescentes com perturbações emocionais e do comportamento.

Crianças/adolescentes com perturbações emocionais e comportamentais apresentam uma baixa autoestima, ausência ou poucas competências interpessoais e de socialização, fraco controlo de impulsos que se verifica através de comportamentos disruptivos com explosões de violência (que podem ser dirigidas aos outros ou si própria), ou por outro lado através de uma grande inibição como mecanismo de defesa perante a ausência de auto-controlo. Apresentam também dificuldade na tomada de consciência e na expressão de sentimentos.

As crianças/adolescentes com esta problemática têm muitas vezes uma postura defensiva caracterizada por mudanças súbitas de humor com oscilações de comportamentos entre a excessiva aproximação com falta de limites e a extrema inibição do contacto.

A musicoterapia promove o estabelecimento de uma experiência emocional partilhada através da música privilegiando assim a ação e a representação de metáforas de emoções e ideias interiores que estão na base dos conflitos. Esta forma de intervenção usa a experiência pessoal da música como forma de promover experiências que envolvam aspetos essenciais na construção/reconstrução de competências sociais, de interação e de comunicação.

A musicoterapia facilita o processo de diferenciação/individualização da criança, reforça a autoestima e promove a sua criatividade.

Num contexto de musicoterapia em grupo, a música pode ser facilitadora e pode promover a coesão grupal, facilitando assim o sentimento de pertença e a promoção da noção de si e do outro.

Com uma postura não diretiva, neutra, empática e num clima seguro e protetor, o musicoterapeuta vai procurar ajudar a criança a expressar de forma livre os seus pensamentos e sentimentos mais profundos, vai procurar compreender o significado implícito das expressões e comunicações da criança e devolver esse significado à criança/adolescente. A linguagem musical permite à criança expressar-se de uma forma menos expositiva que a linguagem verbal.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Estudo de caso - Desafios da demência

A G.R. tinha 95 anos quando integrou um grupo de musicoterapia. Apresentava um diagnóstico de demência não especificada e de hipertensão.
Antes da intervenção, a idosa encontrava-se muito inativa, prostrada e observava-se um elevado isolamento social (principal razão por ser incluída numa intervenção em grupo). Mostrava também pouca produção e pouca fluência verbal. A postura da G.R. revelava pouca ativação do tónus muscular uma vez que se encontrava maioritariamente com o tronco curvado. Do ponto de vista musical, a G.R. só cantava quando abordada individualmente, por curtos espaços de tempo e não tocava instrumentos musicais.

A intervenção consistiu em 25 sessões de musicoterapia. O grupo era constituído por 4 utentes da mesma instituição com um quadro clínico semelhante ao da G.R., no entanto mostravam uma participação mais ativa, com mais produção verbal e coerência no discurso que esta última.

Ao longo da intervenção, a evolução da G.R. traduziu-se em 3 fases distintas nas quais as suas reações, comportamentos, grau de participação e de envolvência foram bastante diferentes.


1ª fase (da sessão 1 à 7): Apresentava-se curvada, sem iniciativa e pouco responsiva. Cantava apenas se abordada individualmente e se a canção lhe fosse muito significativa. Mostrava-se pouco expressiva e motivada, pouca energia, escasso contacto visual e não interagia com os elementos do grupo. Ao longo desta primeira fase o tempo de atividade e de participação da G.R. foi aumentando ligeiramente, necessitando cada vez menos de um incentivo individual.


2ª fase (da sessão 8 à 18): Nesta fase, verificou-se que a G.R. voltava à postura curvada com menos frequência. Começou a ter noção do contexto em que estava inserida, assim como da existência de outros elementos no grupo. Verificaram-se alguns sinais de procura de interação com os mesmos e um aumento da produção verbal. Ao longo desta fase, a G.R. foi mostrando cada vez mais iniciativa, energia e contacto.

3ª fase (da sessão 19 à 25): A partir da sessão 19, todos os progressos verificados nas sessões anteriores se acentuaram, passando a ser observados em todas as sessões. A produção verbal coerente aumentou e tornou-se frequente e expressiva. Observou-se uma ativação do tónus muscular quer durante as sessões quer fora delas. Observou-se um aumento da noção de si e dos outros e uma consequente maior interação com os pares. Do ponto de vista musical a G.R. começou a tocar instrumentos, a cantar por iniciativa, e a relacionar-se também musicalmente com os outros elementos do grupo.

Ao longo da intervenção a G.R. aumentou bastante a sua produtividade, participação, envolvimento e iniciativa. O contacto interpessoal aumentou consideravelmente assim como as interações com os pares durante e fora das sessões. Foi também visível um aumento progressivo da produção verbal coerente.

No final da intervenção a G.R. tinha um papel de líder no grupo e, consequentemente, um papel fundamental na dinâmica do mesmo.

Tal como já foi referido na publicação "Musicoterapia na demência", a musicoterapia confere ao idoso conforto, segurança, sentimentos e emoções positivas promovendo a interação com o terapeuta a um nível mais íntimo e pessoal. Estimula o idoso a recordar palavras, a reconhecer objetos, promove a linguagem e a memória. Promove também o envolvimento do idoso, a interação, a socialização e a comunicação.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A relação terapêutica em musicoterapia

A musicoterapia é uma intervenção terapêutica, onde o progresso terapêutico ocorre na própria experiência musical e através da dinâmica da relação que se cria com o musicoterapeuta.

Assim, é importante que ao longo da intervenção, terapeuta e paciente construam uma relação estruturada, de confiança, confidência e que seja mobilizadora de afetos. Para isso, o musicoterapeuta deve proporcionar ao paciente uma atmosfera de segurança e privacidade.

É essencial que o terapeuta seja recetivo ao diálogo e à proximidade afetiva, que aceite de forma positiva a pessoa que é o paciente e que tenha atitudes de não julgamento para com o mesmo. É nesta atmosfera relacional que ocorrem as atividades musicais.

Cabe ao musicoterapeuta apoiar o paciente, quer no plano musical quer no plano verbal, promover o desenvolvimento pessoal do paciente, trabalhar musicalmente a relação afetiva e conduzir os processos não-musicais para a vivência musical.

A relação terapêutica implica que o terapeuta seja formado, um serviço pago, encontros formais agendados com obrigações de parte a parte, confidencialidade e uma relação de carácter exclusivo com objetivos e tarefas a cumprir.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Musicoterapia na esquizofrenia

A esquizofrenia é uma doença do foro psíquico grave que se caracteriza principalmente por uma alteração no contacto com a realidade.
Os sintomas desta problemática incluem alterações da percepção, pensamento, linguagem, memória e capacidade de resposta.
Assim, podem verificar-se sintomas como dificuldade em expressar emoções e sentimentos, alucinações visuais e/ou auditivas, delírios, pobreza no discurso, bloqueio do pensamento, apatia, comportamentos desajustados, escassez de relacionamentos e de atividades recreativas, alteração formal do pensamento e diminuição da concentração.
O tratamento da esquizofrenia é realizado principalmente através de medicação. No entanto, é importante que existam intervenções psicossociais como complemento à medicação.
Uma intervenção musicoterapêutica com indivíduos com esquizofrenia reduz reações inapropriadas, desenvolve competências sociais pobres, reduz a ansiedade, permite um maior contacto entre o terapeuta e o indivíduo, promove o reforço da autoconsciência, o contacto com a realidade e um comportamento social mais ajustado. Através da música o paciente consegue identificar e expressar sentimentos de modo apropriado.
Quando a medicação não faz efeito, a musicoterapia pode ter um papel fundamental na gestão das crises. No entanto, o tratamento é a longo prazo e deve ser mantido mesmo nos períodos em que estas não se verificam. Desta forma, os desencadeamentos de crise podem ser evitados, melhorando a qualidade de vida do paciente.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Musicoterapia na Depressão

A depressão é uma perturbação do humor que se caracteriza por sentimentos de tristeza, perda de interesse pelas pessoas, pelos projetos que anteriormente interessavam e por uma capacidade diminuída de sentir prazer. As pessoas deprimidas são, por norma, emocionalmente retraídas, difíceis de animar e podem transtornar as pessoas que estão à sua volta.
Para além destas características, é possível identificar sintomas como alterações do apetite ou do peso, alterações do sono e da atividade psicomotora, diminuição da energia, sentimentos de desvalorização pessoal/culpa, dificuldades em tomar decisões, dificuldades de pensar e ao nível da concentração, isolamento social, tentativa ou idealização suicida.

A música é uma linguagem com a inflexão, os detalhes e as emoções do discurso e no uso de um simples instrumento musical, o paciente pode expressar alegria, tristeza, fúria, frustração ou felicidade. Um musicoterapeuta pode criar condições para que o paciente com esta problemática se sinta melhor, mas também pode criar condições para que este possa exteriorizar emoções necessárias como a melancolia, a raiva e a tristeza. Em pacientes com depressão e ansiedade, é importante permitir que as emoções negativas e os conflitos surjam. 
Para alguns pacientes com depressão, materializar as suas experiências verbalmente pode ser extremamente difícil. Alguns podem até não conseguir fazê-lo de todo, mas as suas emoções estão claramente expressas no domínio não-verbal: na sua música. Quando pessoas com depressão tocam, são capazes de reexperimentar e explorar sentimentos que surgiram de situações traumáticas pelas quais passaram ou que testemunharam.
A relação entre musicoterapeuta e paciente é construída através dos significados da experiência musical. É através desta relação que o musicoterapeuta fica apto a ajudar o paciente a compreender a natureza do seu
problema.
A musicoterapia é uma intervenção terapêutica com muito potencial para influenciar o humor e diminuir estados de ansiedade. Pacientes com depressão sujeitos a uma intervenção musicoterapeutica podem começar a ter o controlo de alguns aspetos da sua vida novamente.