terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Escrita de canções em Musicoterapia

Há canções para todas as pessoas e para todas as situações.

As canções fazem-nos refletir sobre a nossa vida, as nossas vivências e ajudam-nos a confrontar com dificuldades. Através delas podemos expressar os nossos sentimentos e pensamentos mais profundos, esperanças, expectativas ou receios.

As canções podem ser uma ferramenta essencial para um musicoterapeuta.
Quando utilizadas em sessão, com objetivos terapêuticos específicos, as canções são um forte meio de auto-expressão. Podem proporcionar segurança, suporte, estimulo ou contenção. São também uma forma de promover a relação terapeuta/cliente.

Quando um cliente cria e canta uma canção, é tão importante o processo como o produto final. O facto de fazer uma canção que é sua, da sua autoria, permite-lhe expressar as suas necessidades, sentimentos e pensamentos que, de outra forma, poderiam ser difíceis de expressar.
Por vezes, permite abordar temas que estão guardados há muito tempo.






domingo, 12 de abril de 2015

Musicoterapia - O Resgate da Essência

A música parece ter um potencial de relevo na criação de um relacionamento significativo entre as pessoas. A necessidade de comunicar, de nos sentirmos seguros, a necessidade de proximidade e de vinculação são constantes ao longo das nossas vidas.

Por vezes, problemas de saúde, episódios traumáticos, aspetos como a idade, a dificuldade em comunicar, em conseguirmos expressar as nossas necessidades, desejos, receios, ansiedades não nos permitem ter a autoria do que se passa na nossa vida, controlar aspetos do nosso dia a dia, estabelecer relações de confiança, de afetividade. A escassez de interações positivas, do contacto com o outro, as perdas sucessivas que vamos sofrendo ao longo da vida, a ausência de atividades bem sucedidas, o decréscimo da auto-estima, a impossibilidade de comunicar verbalmente vão, aos poucos, contribuindo para um isolamento, um desligamento do mundo e do outro.

Estas dificuldades e as suas consequências diárias criam em nós uma perda de interesse em ser, em existir. A nossa essência fica presa dentro do nosso corpo e nós não sabemos como sair. Sem querer, ninguém nos deixa. De certa forma, existem por nós.

A musicoterapia cria pontos de contacto entre as pessoas. Este contacto revela-se muito íntimo e significativo. Confere ao cliente conforto, segurança, sentimentos e emoções positivas. Atividades musicais em contexto terapêutico quebram a barreira do isolamento, constituem um meio de expressão da sua própria identidade.

Assim, é importante que, ao longo da intervenção musicoterapêutica, o terapeuta e o cliente construam uma relação estruturada, de confiança, confidência e que seja mobilizadora de afetos. 
Para isso, o terapeuta deve proporcionar ao cliente uma atmosfera de segurança e privacidade.

É essencial que o terapeuta seja recetivo ao diálogo e à proximidade afetiva, que aceite de forma positiva a pessoa que é o cliente e que tenha atitudes de não julgamento para com o mesmo. O terapeuta deve também apoiar o cliente quer no plano musical, quer no plano verbal, promover o  seu desenvolvimento pessoal, trabalhar musicalmente a relação afetiva e conduzir os processos não musicais para a vivência musical.


Uma sessão de musicoterapia é um local/momento onde o cliente pode ser/existir sem exigências nem restrições. 


terça-feira, 25 de novembro de 2014

A importância de cantar em musicoterapia

Cantar é um rico e excelente mediador de intervenção para um musicoterapeuta. Cantar em musicoterapia proporciona um ponto de contacto significativo e até mesmo emocionalmente íntimo entre o cliente e o terapeuta. Usar a voz como instrumento musical é algo muito pessoal. A voz reflete o quão bem um indivíduo se sente do ponto de vista físico, emocional e até mesmo espiritual.

Numa intervenção musicoterapeutica, cantar pode ser uma fonte de conforto perante acontecimentos traumáticos, dificuldade em compreender o mundo à sua volta e ainda um poderoso meio de chegar ao outro.

Cantar é uma experiência musical muito significativa. Cantar ativa memórias, reduz a melancolia e estados depressivos, estimula respirações profundas e o relaxamento físico, diminui o isolamento, promove a auto-expressão, proporciona algo familiar perante o desconhecido e promove a produção verbal.

Algumas pessoas mostram alguma resistência em cantar devido à perceção que têm da sua voz e da sua capacidade de cantar. É assim, papel do musicoterapeuta, encorajar, motivar e ajudar a reduzir ansiedades e receios que estejam associados ao cantar.




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Musicoterapia Criativa

O modelo de musicoterapia Nordoff-Robbinsn (musicoterapia critativa) foi desenvolvido por Paul Nordoff (compositor e pianista Americano) e Clive Robbins (professor de educação especial). É um modelo de musicoterapia baseado na convicção de que toda a gente possui uma musicalidade inata que pode ser explorada beneficiando o crescimento e promovendo o desenvolvimento pessoal.
O despertar desta musicalidade no cliente aumenta a consciência de si próprio, permite-lhe descobrir o significado da experiência terapêutica, desenvolvendo assim a intenção comunicativa na sua reposta musica.

A música aceita, vai ao encontro e/ou suporta o estado emocional do cliente enquanto este corresponde e acompanha dando liberdade à sua auto-expressão. As suas respostas musicais são o centro da terapia e é nesta interação musical entre terapeuta/cliente que a terapia acontece. Ao longo das sessões, o musicoterapeuta estuda as respostas e a criação musical do cliente para que as possa suportar e improvisar no sentido de uma evolução positiva. Quando o musicoterapeuta toca, expressa a sua presença para o paciente e a sua música reflete as suas primeiras intenções clínicas.
Existe interação verbal, mas é mínima.

A musicoterapia criativa já foi aplicada nas seguintes problemáticas: mutismo, ecolálias, regressões, negativismo, apatia, dependência, insegurança, falta de controlo, estereotipia, falta de criatividade, autismo, psicose infantil, perturbações emocionais, problemáticas intelectuais, distúrbios neurológicos, problemas físicos e sensório motores, distúrbios da aprendizagem entre outras.

Para beneficiar de musicoterapia não são necessários pré-requisitos. O cliente pode ou não falar, uma vez que o uso da musicoterapia criativa não é limitado pelo grau de desenvolvimento nem pela idade.

Através da exploração dos elementos da música, o cliente pode atingir níveis de percepção superiores que são uma parte importante no seu processo terapêutico. Desta forma é possível trabalhar as suas percepções distorcidas através da música. Este tipo de trabalho é paralelo às transferências que ocorrem na psicoterapia tradicional.


domingo, 6 de abril de 2014

Musicoterapia em crianças/adolescentes com perturbações emocionais e do comportamento.

Crianças/adolescentes com perturbações emocionais e comportamentais apresentam uma baixa autoestima, ausência ou poucas competências interpessoais e de socialização, fraco controlo de impulsos que se verifica através de comportamentos disruptivos com explosões de violência (que podem ser dirigidas aos outros ou si própria), ou por outro lado através de uma grande inibição como mecanismo de defesa perante a ausência de auto-controlo. Apresentam também dificuldade na tomada de consciência e na expressão de sentimentos.

As crianças/adolescentes com esta problemática têm muitas vezes uma postura defensiva caracterizada por mudanças súbitas de humor com oscilações de comportamentos entre a excessiva aproximação com falta de limites e a extrema inibição do contacto.

A musicoterapia promove o estabelecimento de uma experiência emocional partilhada através da música privilegiando assim a ação e a representação de metáforas de emoções e ideias interiores que estão na base dos conflitos. Esta forma de intervenção usa a experiência pessoal da música como forma de promover experiências que envolvam aspetos essenciais na construção/reconstrução de competências sociais, de interação e de comunicação.

A musicoterapia facilita o processo de diferenciação/individualização da criança, reforça a autoestima e promove a sua criatividade.

Num contexto de musicoterapia em grupo, a música pode ser facilitadora e pode promover a coesão grupal, facilitando assim o sentimento de pertença e a promoção da noção de si e do outro.

Com uma postura não diretiva, neutra, empática e num clima seguro e protetor, o musicoterapeuta vai procurar ajudar a criança a expressar de forma livre os seus pensamentos e sentimentos mais profundos, vai procurar compreender o significado implícito das expressões e comunicações da criança e devolver esse significado à criança/adolescente. A linguagem musical permite à criança expressar-se de uma forma menos expositiva que a linguagem verbal.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Estudo de caso - Desafios da demência

A G.R. tinha 95 anos quando integrou um grupo de musicoterapia. Apresentava um diagnóstico de demência não especificada e de hipertensão.
Antes da intervenção, a idosa encontrava-se muito inativa, prostrada e observava-se um elevado isolamento social (principal razão por ser incluída numa intervenção em grupo). Mostrava também pouca produção e pouca fluência verbal. A postura da G.R. revelava pouca ativação do tónus muscular uma vez que se encontrava maioritariamente com o tronco curvado. Do ponto de vista musical, a G.R. só cantava quando abordada individualmente, por curtos espaços de tempo e não tocava instrumentos musicais.

A intervenção consistiu em 25 sessões de musicoterapia. O grupo era constituído por 4 utentes da mesma instituição com um quadro clínico semelhante ao da G.R., no entanto mostravam uma participação mais ativa, com mais produção verbal e coerência no discurso que esta última.

Ao longo da intervenção, a evolução da G.R. traduziu-se em 3 fases distintas nas quais as suas reações, comportamentos, grau de participação e de envolvência foram bastante diferentes.


1ª fase (da sessão 1 à 7): Apresentava-se curvada, sem iniciativa e pouco responsiva. Cantava apenas se abordada individualmente e se a canção lhe fosse muito significativa. Mostrava-se pouco expressiva e motivada, pouca energia, escasso contacto visual e não interagia com os elementos do grupo. Ao longo desta primeira fase o tempo de atividade e de participação da G.R. foi aumentando ligeiramente, necessitando cada vez menos de um incentivo individual.


2ª fase (da sessão 8 à 18): Nesta fase, verificou-se que a G.R. voltava à postura curvada com menos frequência. Começou a ter noção do contexto em que estava inserida, assim como da existência de outros elementos no grupo. Verificaram-se alguns sinais de procura de interação com os mesmos e um aumento da produção verbal. Ao longo desta fase, a G.R. foi mostrando cada vez mais iniciativa, energia e contacto.

3ª fase (da sessão 19 à 25): A partir da sessão 19, todos os progressos verificados nas sessões anteriores se acentuaram, passando a ser observados em todas as sessões. A produção verbal coerente aumentou e tornou-se frequente e expressiva. Observou-se uma ativação do tónus muscular quer durante as sessões quer fora delas. Observou-se um aumento da noção de si e dos outros e uma consequente maior interação com os pares. Do ponto de vista musical a G.R. começou a tocar instrumentos, a cantar por iniciativa, e a relacionar-se também musicalmente com os outros elementos do grupo.

Ao longo da intervenção a G.R. aumentou bastante a sua produtividade, participação, envolvimento e iniciativa. O contacto interpessoal aumentou consideravelmente assim como as interações com os pares durante e fora das sessões. Foi também visível um aumento progressivo da produção verbal coerente.

No final da intervenção a G.R. tinha um papel de líder no grupo e, consequentemente, um papel fundamental na dinâmica do mesmo.

Tal como já foi referido na publicação "Musicoterapia na demência", a musicoterapia confere ao idoso conforto, segurança, sentimentos e emoções positivas promovendo a interação com o terapeuta a um nível mais íntimo e pessoal. Estimula o idoso a recordar palavras, a reconhecer objetos, promove a linguagem e a memória. Promove também o envolvimento do idoso, a interação, a socialização e a comunicação.